Um verão que se afasta

Pé ante pé caminho, enterro-me na areia que cede sob os meus passos. Areia que resiste há medida que se torna mais húmida. Um vento suave sopra, uma brisa familiar, carinhosa. O mar toca-me, saudoso, primeiro os pés, as pernas, os joelhos, barriga, peito; eu entrego-me a ele, avançando, destemido, sentindo que nada pode arruinar este momento. Conchas, que formam um tapete sob as ondas que rebentam, estalam sob o meu peso, a água envolve-me fria e, contudo, agradável. O sol brilha e morde a pele com furor.

Mergulho e por meros instantes o mundo torna-se silencioso; apenas alguns sons me chegam, distantes. Volto à superfície e os meus ouvidos enchem-se de vida: os sons de um mundo em constante luta, um mundo que batalha para sobreviver a qualquer custo. Um mundo construído por pessoas que nem num lugar destes, um lugar que podia ter sido um paraíso, tivéssemos nós tido forças para tal, conseguia existir pacificamente. Pessoas cujos corações e mentes estão cheios de ódio e despeito pelo próximo, pessoas que se alimentam de intrigas e do sofrimento alheio.

Apercebo-me que gosto mais do mundo quando estou debaixo de água, calmo, simples, silencioso.

Ardem-me os olhos; a escuridão dissolve-se quando os abro novamente. Deixo-me ficar de molho. Podia pensar em mim, no ontem ou no amanhã, mas escolho pensar no hoje, no agora. Nada mais devia importar. Lentamente, sinto o corpo transformar-se na água que me envolve, o meu espírito na espuma. Juntar-me-ei a todos aqueles que habitam os fundos marinhos? Quem sabe, um dia poderei nadar com os cardumes de peixes, ouvir a música que embeleza o oceano. Mas não agora; agora as ondas são o meu único movimento, cíclico, apaixonante; quem me dera ser onda…

Saio por fim da água, a custo. Arrasto-me pela areia, passando entre duas pessoas que discutem sobre um metro quadrado da mesma. A lengalenga do costume: uma chegou primeiro e a outra montou o seu estaminé quase em cima desta, ainda por cima com tanto espaço livre. Abano a cabeça, suprimindo uma gargalhada; nada há mais a fazer. Deito-me na toalha, gotas escorrendo por todo o meu corpo e enquanto o mar arranha a areia, longínquo, lembro-me que o fim de tudo isto se aproxima a uma velocidade ameaçadora.

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